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Ensaio sobre a Surdez


Ter surdez é lidar diariamente com angústia de viver em uma sociedade que exclui quem é diferente. Eu nunca imaginei que minha vida seria totalmente atravessada por essa experiência.


Altos e baixos, medos, receios são presentes em mim mesmo sendo eu uma psicóloga formada e que todos os dias aprende e estuda sobre saúde mental. Faço terapia há muito tempo e acredito que parte do que sou hoje devo a esta experiência de me sentar na frente de outra pessoa e me desconstruir de meus pré-conceitos, medos, inseguranças.


Eu não sou diferente das pessoas que me procuram em busca de saírem do armário da surdez. Assim como elas precisei enfrentar a mim mesmo para me adaptar a vivência com a surdez em sociedade. Não foi, não é e nem será nunca uma decisão fácil, mas a realizo todos os dias independentemente de como me sinta.


Se me questionassem quanto a pessoa que sou hoje para a pessoa antes da surdez todos esperariam uma resposta óbvia de que minha escolha sempre seria a de antes da surdez. Pois, surpreendentemente digo que prefiro quem me tornei a partir da minha surdez, sei que pode parecer uma loucura, mas foi através dela que me enfrentei, que me coloquei para realizar, me transformar na minha melhor versão.


Claro que não é nada maravilhoso ter surdez, mas o que ela significou para mim psicologicamente sim. Sempre vi pessoas dizerem que é nas dificuldades da vida que nos descobrimos capazes de alcançar nossos sonhos e devo admitir que estavam certos.

Quando abri as janelas internas para que se pudesse deixar o ar invadir meus pulmões eu pude finalmente respirar e ser quem sou com tudo que tenho no agora.


Essa é a grande meta do meu trabalho na psicologia com surdos oralizados, fazer-se entender que ficar no passado não irá mudar o que acontece no agora e nem se desesperar pelo futuro irá diminuir os processos e vivências que a surdez apresenta.


O foco deve ser para o presente, para aquilo que pode ser transformado, entendido, acolhido e sentido internamente sob a surdez presente. Por essa razão para muito além dos protocolos, teoria, abordagem psicológica que muito embora sejam fundamentais para a realização do meu trabalho eu ensino ampliar o olhar para além das janelas de seu mundo interno e enxergar um universo de possibilidades existentes mesmo com a surdez existindo.


Senso de humor ao se permitir divertir-se frente as confusões que o cérebro faz ao tentar captar os sons recebidos e interpretá-los para entendimento.


Autonomia para buscar auxílio profissional de todas as áreas para alcançar uma qualidade de vida que os leve a experienciar momentos felizes, conquistas diárias e autoconhecimento de seus talentos, habilidades e competências.


Lutar pela própria causa ao divulgar, tornar visível a existência de surdos oralizados na comunidade surda para que a sociedade entenda que acessibilidade vai muito além da Língua de Sinais. É fazer com haja empatia, respeito, direitos a acesso a espaços públicos em todos os campos do coletivo que incluam pessoas com deficiência sejam quais forem.


Estes são os meus três pilares para ajudar as pessoas que confiam no meu trabalho. Um processo que é da pessoa, mas que vivencio junto ao ser a base forte que diz que ela(e) não está sozinho(a). Existem muitos psicólogos competentes e experientes, mas nenhum que possa afirmar com todas as letras que vive a dor de seu paciente.


Eu vivo, pois, sou surda oralizada!


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